A internet está mesmo mudando o mundo. Em 7 de março foi
lançado o Ipad 3. No mesmo dia, alguns sites publicaram que o Ecad estava
cobrando para divulgar vídeos do youtube em sites. A reação dos internautas foi
imediata. “Ecad” foi o trending topic brasileiro nº 1 no twitter nesse dia, à
frente do lançamento do Ipad. Isso continuou no dia 8.
Ainda no dia 7 publiquei o post anterior, no qual procurei
demonstrar os motivos pelos quais o Ecad estava errado. No dia 8, concedi ao
portal Uai a entrevista que reproduzo abaixo:
Uma recente cobrança
feita pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) ao blog de
design Caligraffiti, por causa da
inserção de vídeos do YouTube em posts, reacendeu a discussão sobre o
pagamento de direitos autorais de músicos e compositores na internet. De um
lado, o órgão que efetuou a cobrança se baseia na Lei de Direitos Autorais
9.610/98, que garante o direito do autor na difusão de sons por meio da
internet. Na contramão estão os produtores de conteúdo que reclamam de
excessiva cobrança. "O ECAD além de ganhar do Google e Facebook agora está
começando a taxar todos os sites que têm algum tipo de sonorização, mesmo sendo
um compartilhamento", diz o desabafo publicado no blog de Caligraffiti.
A polêmica divide a
opinião de especialistas. Para o Procurador da República no Ministério Público
Federal Edilson Vitorelli a cobrança do Ecad é incorreta, pois a postagem do
link contabiliza mais uma reprodução para o YouTube, não para o site que o
utilizou. “É verdade que a lei autoriza a cobrança de direitos autorais sobre a
reprodução sonora. Mas o YouTube já pagou esses direitos, como o próprio Ecad
reconhece. Quando alguém posta o vídeo, apenas disponibiliza ao leitor um link,
que permite que ele acesse o site do YouTube e faça a reprodução de lá. 'Postar
um vídeo', no caso, é apenas postar um link. Logo, não há nova utilização, nem
nova reprodução”, explica.
O Procurador ainda
critica a postura do órgão de cobrar a taxa apenas para sites e blogs que
possuam um número de acessos razoável. “É evidentemente ilegal realizar uma
cobrança compulsória em razão de um “certo” número de acessos ou de vídeos, sem
que ninguém saiba que número é esse”, afirma. “Se insistir na cobrança, o Ecad
tem que dizer exatamente quais são os parâmetros objetivos para realizá-la”,
completa.
Já para a advogada e
diretora executiva da União Brasileira de Compositores, Marisa Gandelman, o
mais importante não é discutir um caso específico como esse que ganhou
destaque, mas ampliar o debate e ouvir todas as partes. “Essa troca de
acusações não vai levar a lugar nenhum. Ampliar o debate de forma que todas as
partes tenham a chance de falar é muito mais importante que polarizar a
discussão em concordar ou discordar”, defende. Ela lembra que essa conversa
aprofundada é uma tendência mundial. “Atrás da música tem um ser humano e a
conta dele de supermercado não pode ser paga com arquivos de internet. Como os
artistas vão viver numa era em que tudo é reproduzido em tempo real?”,
questiona.
Marisa Gandelman
também levanta outro importante aspecto que é a irregularidade das empresas de
radio e televisão no pagamento dos direitos autorais. Segundo a diretora, elas
são as grandes usuárias de música e deveriam sustentar os criadores. Mas, como
não fazem isso, o Ecad precisa se voltar para todos os meios a fim de conseguir
o sustento do artista. “Se as empresas de radio e televisão pagassem os direitos
autorais, talvez os blogs nem seriam fiscalizados, até porque meios digitais de
difusão apresentam uma equação econômica complicada no sentido de resultar em
valores que remunerem as necessidades cotidianas dos compositores”, destaca.
Em contrapartida à
opinião da advogada, o Procurador Edilson Vitorelli afirma que, por não ser um
órgão público, o Ecad não possui controle do governo e possui um sistema de
cobrança pouco claro. “Toda essa discussão demonstra a fragilidade do sistema
brasileiro de direitos autorais. Por não ser um órgão público, os critérios de
cobrança são definidos de modo arbitrário, sem publicidade ou controle
governamental. Mesmo os critérios de distribuição desse dinheiro entre os
artistas são muito questionados”.
COMO PROCEDER EM CASO
DE COBRANÇA
Aos donos de sites e
blogs que receberam a cobrança do Ecad e
não concordam com ela só resta a justiça, “Quem recebe a cobrança tem duas
opções: ou procura um advogado e ingressa imediatamente na justiça, ou espera ser
cobrado pelo Ecad e, aí sim, se defende. Como o governo não exerce nenhum
controle sobre o Ecad, a questão vai necessariamente desaguar na justiça”,
aconselha Vitorelli.
Ontem, 2 dias depois da violenta reação na internet, o Ecad
capitulou e reconheceu o absurdo de sua cobrança, que atribuiu a um “erro de
interpretação operacional”. O portal Uai resumiu a bandeira branca do Ecad nos
seguintes termos:
O Escritório Central
de Arrecadação e Distribuição (Ecad) voltou atrás e, em nota, informou que
nunca teve a intenção de cercear a liberdade na internet e cobrar direitos
autorais por vídeos incorporados a blogs e sites. A polêmica começou quando
blogueiros começaram a receber notificações por usarem vídeos do Youtube, do
Google.
Alguns usuários
receberam cobranças de R$ 352 mensais por colocarem vídeos nos posts. O Ecad
justificou-se dizendo que era uma forma de "retransmissão musical" e,
por isso, os direitos autorais deveriam ser pagos. A entidade, porém, já recebe
o pagamento diretamente do Google, com quem assinou um acordo para direitos
autorais de todos os vídeos que circulam pelo Youtube.
Em comunicado, o
Google Brasil se posicionou contra a cobrança dos usuários que incorporam
vídeos do Youtube. "Esses sites não hospedam nem transmitem qualquer
conteúdo quando associam um vídeo do YouTube em seu site", disse o diretor
de políticas públicas e relações governamentais Marcel Leonardi. Segundo a
nota, o Ecad "não pode cobrar por vídeos inseridos por terceiros".
Em sua nota de
esclarecimento, o Ecad reavalia as cobranças de webcasting desde o fim de
fevereiro e afirma que as notificações devem ter ocorrido antes da mudança.
"Mesmo assim, decorreu de um erro de interpretação operacional, que
representa fato isolado no universo do segmento", explicou o escritório.
Erro de interpretação, sei. Será que se ninguém tivesse
reclamado, as cobranças seriam voluntariamente suspensas? A internet derrubou
um governo egípcio ditatorial de mais de 20 anos. Por aqui, mesmo que tenhamos
fama de acomodados, derrubamos uma cobrança absurda em 2 dias. Estamos mesmo
mudando o mundo.